A menos de um mês do pleito de outubro de 2026, a profunda crise institucional envolvendo o Poder Judiciário passou a dominar a atenção pública no Brasil, comprometendo a qualidade do debate eleitoral e obscurecendo a apresentação de propostas essenciais para os problemas estruturais do país, segundo alertam diferentes entidades da sociedade civil.
Instabilidade nos Poderes desvia o foco das urgências nacionais
A presidenta da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), Samira de Castro, destaca que os desdobramentos dos conflitos no Judiciário absorveram os refletores da imprensa e das redes sociais, empurrando as pautas programáticas dos candidatos para segundo plano.
Na visão de Francilene Garcia, presidenta da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), criou-se uma falsa dicotomia entre defender a integridade das instituições e discutir o desenvolvimento nacional. Para a pesquisadora, setores cruciais como a ciência exigem estabilidade regulatória e orçamento previsível, demandas que deveriam estar no centro dos debates.
Investigações graves e o esvaziamento das plataformas de governo
Embora considerem indispensável apurar os fatos revelados pela Operação Compliance Zero — deflagrada pela Polícia Federal (PF) para investigar conexões entre autoridades e o antigo Banco Master —, os representantes civis lamentam que o escândalo tenha eclipsado o futuro do país.
O coordenador honorário da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, Daniel Cara, pondera que a disputa de 2026 ocorre em um momento global decisivo. Contudo, temas centrais como soberania, defesa e educação acabaram escanteados pelos concorrentes aos cargos executivos e legislativos.
Pautas trabalhistas, emergência climática e minerais estratégicos
No setor trabalhista, a presidenta do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), Rita Serrano, aponta que o impasse institucional paralisou negociações importantes no Congresso Nacional, incluindo o encerramento da escala de trabalho 6x1 e a regulamentação do trabalho público.
A negligência se estende à crise climática, como adverte Márcio Astrini, secretário executivo do Observatório do Clima. Segundo ele, poucos postulantes abordam com a devida gravidade os eventos extremos como secas e enchentes, enquanto alguns chegam a negar a emergência ambiental.
Paralelamente, o debate sobre minerais críticos e terras raras mobiliza visões opostas. Enquanto o setor produtivo busca avanços tecnológicos, organizações socioambientais exigem garantias aos povos originários. O coordenador da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), Alcebias Constantino, destaca a reação do movimento, que lançou 56 candidaturas indígenas para assegurar direitos territoriais e sociais diretamente nos espaços de poder.