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Domingo, 05 de Julho 2026
China cria mecanismos financeiros na África para reduzir dependência do dólar
Economia

China cria mecanismos financeiros na África para reduzir dependência do dólar

O yuan chinês busca maior espaço em um continente onde Pequim já é a principal parceira comercial.

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A China tem intensificado seus esforços para expandir a infraestrutura financeira no continente africano, visando diminuir a dependência do dólar norte-americano. Essa estratégia permite a comercialização de bens e serviços através de moedas locais e do yuan chinês, fortalecendo as relações comerciais entre a China e a África e promovendo uma maior autonomia monetária regional.

Apesar dessas iniciativas, a utilização do yuan (ou renminbi) ainda representa uma parcela minoritária das transações no continente. A completa desdolarização, inclusive para as autoridades em Pequim, permanece como um objetivo distante no horizonte atual.

Recentemente, no final de junho, o Banco Central da China concedeu autorização para pagamentos diretos em yuan no Standard Bank, o maior grupo bancário africano, com sede na África do Sul. Esta colaboração foi estabelecida em parceria com o Banco Industrial e Comercial da China (ICBC).

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Conforme comunicado do Standard Bank, que opera em 21 nações africanas, essa parceria “nos posiciona de forma única para operar com o renminbi chinês (RMB)”. Ela possibilita que empresas realizem e recebam pagamentos em RMB para liquidações comerciais, facilitando o intercâmbio comercial entre a África e a China.

Atualmente, a China se consolidou como a principal parceira comercial da África. Dados da Administração Geral de Alfândegas (GAC) da China revelam que, entre os anos 2000 e 2024, o volume de comércio entre o continente e o país asiático registrou um crescimento médio anual de 14%.

Em 1º de maio, uma decisão chinesa de isentar taxas de importação para produtos africanos foi implementada. A medida visa fortalecer ainda mais o comércio bilateral entre o gigante asiático e a África.

O yuan ainda é minoritário

Marco Fernandes, analista geopolítico do Conselho Popular do Brics, observa que o avanço do yuan na África é, por enquanto, modesto. Contudo, ele enfatiza que a China está construindo uma robusta infraestrutura para permitir transações comerciais no continente sem a necessidade do dólar.

“Isso é um começo. A China tem promovido diversas iniciativas como essas globalmente para comercializar sem o dólar. No entanto, o volume negociado em yuan ainda é irrelevante frente à dimensão da economia mundial. É como se estivessem preparando os trilhos para um futuro trem-bala chinês”, comentou Fernandes.

O analista do portal Brasil de Fato complementou que a maioria das commodities de energia e alimentos, em escala global, ainda é negociada em dólares.

“O yuan ocupa hoje a quinta posição entre as moedas de comércio mundial, com aproximadamente 8,5% das transações globais, o que ainda é pouco. Mas é um percentual que demonstra crescimento quando comparado a três, cinco ou dez anos atrás”, afirmou Marco Fernandes.

A hegemonia do dólar

A “desdolarização” da economia global tem sido um dos pontos centrais na agenda do Brics, grupo que reúne países do Sul Global como Brasil, China, Índia e África do Sul. A justificativa é que o uso do dólar como moeda de reserva internacional confere vantagens econômicas e políticas significativas aos Estados Unidos.

Em contrapartida, a pauta de “desdolarização” é veementemente criticada pelo ex-presidente Donald Trump. Ele promete empenhar-se para preservar a hegemonia da moeda estadunidense no cenário mundial.

China hesita em impulsionar o yuan

Marco Fernandes, que também é editor da revista Wenhua Zongheng International, aponta que a China não demonstra interesse em uma desdolarização imediata. Um dos motivos é a vasta quantidade de reservas que o país ainda possui em dólar.

Além disso, Pequim busca manter o valor de sua moeda estável para assegurar a competitividade de suas exportações. Outro desafio reside na hesitação da China em abrir sua conta de capitais, uma medida considerada crucial para a internacionalização do yuan, mas que exporia o sistema financeiro chinês a possíveis turbulências da especulação global. A conta de capitais refere-se à movimentação de recursos financeiros que entram e saem do país.

“Uma desvalorização rápida do dólar representaria um prejuízo considerável, tanto para o Estado chinês quanto para suas empresas. É fundamental que esse processo de desdolarização ocorra de maneira lenta, gradual e segura”, enfatizou Marco Fernandes.

Alternativas ao dólar

Em junho deste ano, o economista brasileiro Paulo Nogueira Batista Jr., ex-vice-presidente do banco do Brics, publicou um artigo propondo a criação de uma nova moeda de reserva para o comércio internacional.

Nogueira reconhece o papel crescente da moeda chinesa nas operações de liquidação do comércio internacional, impulsionado pela rede de pagamentos do Banco Popular da China (PBOC), que abrange mais de 40 bancos centrais.

Contudo, o especialista argumenta que a substituição do dólar pelo yuan ainda não atende aos interesses da economia chinesa. Em vez disso, ele sugere a criação de uma moeda própria para o comércio global, composta por uma “cesta” de moedas de países do Sul Global.

“A proposta é a criação de uma nova unidade de conta por um grupo de nações do Brics (não necessariamente todas) e outros países do Sul Global. Em um momento oportuno, essa unidade de conta seria convertida em uma nova moeda, mantendo os mesmos pesos”, detalhou Paulo Nogueira em seu artigo para o Valdai Discussion Club, um centro de estudos sediado em Moscou.

Para o analista geopolítico Marco Fernandes, a desdolarização da economia é vital para promover maior justiça no cenário econômico mundial. Além disso, ela contribuiria para reduzir o poder político e econômico dos EUA, que, por meio de sanções e embargos financeiros, conseguem influenciar outras nações.

“Devido à hegemonia do dólar, cada vez que o Banco Central dos EUA eleva as taxas de juros, as moedas dos países em desenvolvimento se desvalorizam. Isso resulta em importações mais caras, elevando os preços de produtos essenciais como trigo, arroz, milho e outros alimentos. Uma pequena variação pode significar a fome, ou até mesmo a morte, de milhares de pessoas”, concluiu Fernandes, ressaltando o impacto social da questão monetária.

FONTE/CRÉDITOS: Com edição do Lnove Notícias
FONTE/CRÉDITOS (IMAGEM DE CAPA): © Valter Campanato/Agência Brasil/Arquivo

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