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Sexta-feira, 03 de Julho 2026
Brasil completa um ano fora do Mapa da Fome, mas a insegurança alimentar grave ainda desafia políticas públicas
Economia

Brasil completa um ano fora do Mapa da Fome, mas a insegurança alimentar grave ainda desafia políticas públicas

Especialistas da Agência Brasil apontam que a sustentabilidade da conquista exige ações contínuas em emprego, educação, saúde, renda, saneamento e segurança.

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Há um ano, em julho de 2025, o Brasil alcançou um marco significativo ao sair do Mapa da Fome, indicando que menos de 2,5% da população enfrentava risco de subnutrição ou acesso insuficiente a alimentos. Contudo, apesar dessa importante vitória, o país ainda lida com o desafio de aproximadamente 6,5 milhões de brasileiros em situação de insegurança alimentar grave, evidenciando a necessidade de fortalecer as políticas públicas para garantir a segurança alimentar de forma permanente.

Este patamar representa o menor índice na série histórica, mas a persistência da fome exige atenção contínua. A segurança alimentar, definida como o acesso regular, permanente e adequado a alimentos saudáveis e de qualidade, é atualmente assegurada a 77% da população brasileira.

Lucas de Almeida Moura, pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Combate à Fome, da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, enfatiza a urgência de estabelecer mecanismos que garantam a perenidade das estratégias que impulsionaram a redução da insegurança alimentar no Brasil.

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“Ter alcançado este marco, pela segunda vez, de saída do Mapa da Fome, é resultado de uma intersetorialidade muito forte entre as políticas públicas. Isso precisa, de fato, ser mantido e, mais do que mantido, aprimorado”, afirma Moura.

O especialista ressalta que o combate à insegurança alimentar vai além da simples oferta de alimentos, abrangendo a construção e a manutenção de uma estrutura complexa que assegure o acesso adequado à nutrição. Isso engloba a garantia de renda mínima, educação, saneamento básico, segurança pública e oportunidades de emprego.

Moura é o idealizador do Índice Multidimensional de Insegurança Alimentar (MUFII), uma ferramenta que oferece uma medição multidimensional da fome no Brasil. Lançado em janeiro, o primeiro levantamento do MUFII cobriu o período de 2018 a 2022.

Os achados do MUFII, publicados na revista Sustainability, propõem uma avaliação da fome com base em 12 indicadores de Desenvolvimento Sustentável, permitindo comparações anuais. A pesquisa revelou uma piora no cenário nacional em 2022, com os menores valores médios registrados em Santa Catarina e os maiores no Maranhão, Acre e Amazonas.

Os dados do estudo indicam que a maioria dos estados das regiões Norte e Nordeste do Brasil apresenta um nível superior a 50% de insegurança alimentar multidimensional. Os pesquisadores planejam atualizar o índice para os anos subsequentes a 2022.

Políticas públicas para a segurança alimentar

Valéria Burity, secretária Extraordinária de Combate à Pobreza e à Fome do Ministério do Desenvolvimento Social (MDS), destaca a meta de assegurar que todos os brasileiros tenham acesso a uma alimentação de qualidade como um direito fundamental.

“Essa é uma meta de longo prazo de impacto: a gente garantir direito à alimentação adequada saudável como um direito para toda a população brasileira”, declara Burity.

Entre as iniciativas de maior impacto na redução da fome, destaca-se o Plano Brasil sem Fome, que integra medidas de política econômica e proteção social. O plano impulsionou a agricultura familiar, promoveu o reajuste na alimentação escolar, ofereceu suporte a cozinhas comunitárias e estabeleceu diretrizes para garantir proteção social, trabalho, renda e acesso a uma alimentação adequada.

A secretária aponta que a prioridade atual é a inclusão de indivíduos em risco de insegurança alimentar nas políticas públicas, com o objetivo de apoiar estados e municípios a replicarem essas ações.

Três pilares do combate à fome

A professora Semíramis Domene, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e diretora do Instituto Fome Zero (IFZ), identifica três grandes movimentos que contribuíram para que a fome atingisse novamente patamares mais baixos.

O primeiro pilar foca na diminuição da desigualdade. “Se o acúmulo de riqueza e desigualdade estão na raiz da fome, combater a desigualdade está na raiz do caminho para sair dela”, argumenta.

As políticas de emprego e renda foram cruciais nesse processo. “Temos hoje o menor índice de desemprego em 13 anos; temos uma elevação do salário mínimo que alcançou reajustes superiores a 6% a partir de 2022. Então, nessa primeira dimensão de combater a desigualdade, temos sido muito bem-sucedidos”, detalha Domene.

A segunda frente consistiu no fortalecimento das políticas públicas de proteção social, que vai além da redução da desigualdade por meio do emprego. Inclui a criação de mais postos de trabalho, o aumento da renda e a consolidação do Sistema Único de Saúde (SUS).

No âmbito do Bolsa Família, os resultados são encorajadores, mostrando que as famílias beneficiadas progridem para condições de emprego, melhoram a escolarização de suas crianças, e muitas delas deixam o programa devido à melhoria de sua situação familiar. Também foram citados avanços com o Cadastro Único, modernizado em 2025, e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE).

A terceira frente essencial, que também contribui para a saída do Mapa da Fome, são as ações relacionadas à produção de alimentos. Isso envolve o fortalecimento das políticas de abastecimento, com especial incentivo à agricultura familiar, que está mais conectada aos alimentos que chegam à mesa da população.

Para a diretora do Instituto Fome Zero, o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), que estava quase extinto e sem financiamento, tem sido vital para a agricultura familiar. “Pode-se discutir abastecimento na perspectiva do alimento como função social e da terra não como um bem que favorece o mercado internacional de commodities”, pondera.

O papel do Bolsa Família e do mercado de trabalho

Daniel Duque, economista e pesquisador associado do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV), também sublinha a importância do Bolsa Família na redução da fome no país. Segundo ele, o incremento na assistência de renda permitiu que milhões de famílias recuperassem seu poder de compra.

Adicionalmente, Duque observa que os preços dos alimentos registraram uma desaceleração em relação à inflação geral a partir de 2023 e nos anos seguintes de 2024 e 2025. As boas safras nacionais contribuíram para o controle dos preços, e a melhoria significativa do mercado de trabalho nesse período foi um fator crucial para o avanço da situação brasileira.

Para que o Brasil permaneça fora do Mapa da Fome e continue a reduzir os índices de insegurança alimentar, é fundamental manter um mercado de trabalho favorável. “Até agora, não parece haver nenhum indicativo de reversão do emprego”, conclui Duque.

FONTE/CRÉDITOS: Com edição do Lnove Notícias
FONTE/CRÉDITOS (IMAGEM DE CAPA): © Fernando Frazão/Agência Brasil

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