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Quinta-feira, 02 de Julho 2026
Senacon investiga CazéTV por publicidade de apostas esportivas em transmissões da Copa
Economia

Senacon investiga CazéTV por publicidade de apostas esportivas em transmissões da Copa

Ação da Secretaria Nacional do Consumidor reacende debate sobre limites da publicidade digital e regulamentação de bets.

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A Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) iniciou uma investigação contra a CazéTV para apurar possíveis irregularidades na publicidade de apostas esportivas durante as transmissões dos jogos da Copa do Mundo 2026. A medida, que ocorreu na última quinta-feira (25), reacende o debate entre especialistas sobre os desafios da regulamentação da publicidade digital e a distinção entre conteúdo editorial e merchandising em plataformas online.

A CazéTV consolidou-se como uma das plataformas líderes na cobertura da Copa, rivalizando com emissoras tradicionais. O canal se destacou no cenário esportivo nacional, sendo o único a transmitir a totalidade dos 104 jogos do torneio.

A citação da CazéTV pela Senacon, órgão vinculado ao Ministério da Justiça e Segurança Pública, visa verificar ilegalidades na publicidade de apostas esportivas de quota fixa, conhecidas como bets. Este processo intensifica a discussão entre especialistas a respeito dos limites entre informação, entretenimento e a responsabilidade social das plataformas digitais.

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Relatos indicam que, durante as transmissões e programas pré-jogo da CazéTV, narradores sugeriam odds — indicadores de probabilidade e retorno potencial das apostas —, apontando resultados prováveis. Além disso, dicas específicas sobre como e em quem apostar eram exibidas na tela.

Um estudo do portal ICL Notícias, que monitorou 48 partidas da CazéTV, revelou 74 sugestões de apostas. Desse total, 61% das previsões não se concretizaram. As ofertas eram promovidas por Bet365, Betnacional e KTO, empresas de apostas esportivas anunciantes do canal durante a Copa.

O cenário da publicidade de apostas

As empresas de apostas esportivas consolidaram-se como a segunda maior categoria anunciante na Copa, superadas apenas pelo segmento de alimentos e bebidas. Notavelmente, as transmissões oficiais, realizadas por Rede Globo, CazéTV e SBT, contam com anunciantes do setor de bets.

Anderson Santos, professor da Universidade Federal do Alagoas e coordenador do Observatório das Transmissões de Futebol, aponta que o diferencial da CazéTV reside em seu estilo de transmissão. Ele argumenta que a fusão de informação, entretenimento e merchandising, embora eficaz para produtos de consumo geral, torna-se delicada ao promover apostas esportivas.

Santos alerta que, apesar da habilidade em integrar o produto de forma natural, a abordagem é problemática. "A aposta esportiva é um problema de saúde coletiva, afetando a saúde financeira, física e mental. Transformar isso em algo do dia a dia é extremamente perigoso", enfatiza o especialista.

Janaine Aires, professora da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e líder de pesquisa, observa que as regulamentações mais estritas para a publicidade em mídias tradicionais impulsionam as marcas para a internet. Nesse ambiente digital, a falta de clareza nas regras cria uma "zona cinzenta" propícia à exploração.

Aires explica que, enquanto na televisão aberta a publicidade é claramente separada do conteúdo editorial, o modelo da CazéTV mescla ambos. Esse formato revela uma lacuna na atuação dos órgãos fiscalizadores, que ainda buscam compreender e regulamentar os formatos digitais nativos, abrindo precedentes para ações mais agressivas das marcas.

"Diante de uma brecha regulatória, há uma migração para novas plataformas que não se submetem às regras tradicionais", detalha Aires. Ela acrescenta que, nesse cenário, "investidores e financiadores estabelecem suas próprias normas até que algum tipo de freio seja imposto para reorientar a situação".

Um estudo da Agência Macfor, divulgado em junho, revelou mais de 18 milhões de buscas pelo termo "bet" no Brasil no mês anterior à Copa do Mundo. A pesquisa indica que seis em cada dez brasileiros planejavam apostar, e o interesse por apostas esportivas cresceu 496% no país nos últimos cinco anos.

O Ministério da Fazenda estima que o setor de apostas esportivas registrou um lucro bruto de R$ 37 bilhões em 2025. Enquanto isso, o interesse por bets diminuiu em países como Reino Unido (-19,6%), Portugal (-53%) e Espanha (-12,6%), mas avançou 268,8% na Argentina, conforme a Agência Macfor.

O fenômeno CazéTV

A CazéTV foi estabelecida em 2022, fruto da colaboração entre a LiveMode, empresa com vasta experiência em direitos de transmissão, e o streamer Casimiro Miguel, que ganhou destaque com suas lives durante a pandemia de Covid-19.

A aprovação da Lei do Mandante (Lei nº 14.205/2021) em 2021 impulsionou a parceria, concedendo aos clubes liberdade para negociar transmissões e enfraquecendo o monopólio da Rede Globo. Na Copa do Mundo de 2022, a CazéTV, em conjunto com a Federação Internacional de Futebol Associado (Fifa), transmitiu 22 jogos.

Anderson Santos descreve o estilo da CazéTV como uma cobertura esportiva focada no entretenimento, priorizando o engajamento do público em um mercado altamente competitivo. Ele ressalta que essa abordagem se distancia do jornalismo esportivo tradicional.

"Há uma maior liberdade de conteúdo, o que ocasionalmente gera problemas a partir dos comentários", afirma Santos. Ele compara a experiência a "estar em casa, no celular, como se encontrasse amigos em uma mesa de bar para comentar o jogo".

Santos argumenta ser um equívoco considerar essa reconfiguração como o fim da televisão tradicional, que ainda possui grande relevância nacional. Para ele, o consumo permanecerá estável, adaptando-se às demandas do público.

Ele justifica essa flexibilidade do consumo: "É por conta do nosso ritmo de vida, especialmente pós-pandemia, onde precisamos estar em diferentes telas, trabalhando em um lugar e fazendo outra coisa simultaneamente".

Janaine Aires vê no modelo da CazéTV, que borra as fronteiras entre informação e entretenimento, uma estratégia para o canal. Contudo, ela também percebe uma tendência de precarização do mercado profissional nesse formato.

"O profissional do entretenimento é mais acessível que o jornalista, e fazer jornalismo é mais custoso", explica Aires. Ela sugere que "declarar que não se faz jornalismo é uma forma de precarização, pois, caso contrário, teriam que seguir as regras sindicais".

A busca por regulamentação

Atualmente, dois projetos de lei abordam a questão da publicidade de apostas esportivas: o PL 2.478/2026 na Câmara e o PL 2.470/2026 no Senado. Ambos visam proibir a publicidade e o patrocínio de empresas de apostas e jogos online em diversos meios e eventos no Brasil. A iniciativa partiu da Frente Parlamentar Mista para a Promoção da Saúde Mental.

Janaine Aires traça um paralelo com a proibição da publicidade da indústria do tabaco. No entanto, ela alerta que o extenso patrocínio das empresas de apostas esportivas em diversos setores do país pode dificultar a implementação de medidas semelhantes.

"Se uma empresa jornalística é patrocinada por bets, o que já é uma realidade no país, essa discussão não será abordada pelo jornalismo", pontua Aires. Ela conclui, citando pesquisas, que o próximo congresso pode adicionar "Bet" aos "Bs" já existentes (boi, bala, Bíblia), colocando em risco a democracia brasileira.

*Estagiária sob supervisão da jornalista Mariana Tokarnia.

FONTE/CRÉDITOS: Com edição do Lnove Notícias
FONTE/CRÉDITOS (IMAGEM DE CAPA): © Tânia Rêgo/Agência Brasil

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