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Quarta-feira, 22 de Julho 2026
Tarifa dos EUA sobre etanol brasileiro tem impacto limitado, apontam especialistas
Economia

Tarifa dos EUA sobre etanol brasileiro tem impacto limitado, apontam especialistas

Especialistas da UFRJ e outras instituições avaliam que a medida americana tem forte componente político e afeta um mercado secundário para o biocombustível brasileiro.

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A nova tarifa de 25% imposta pelos Estados Unidos sobre o etanol brasileiro deverá gerar efeitos pontuais em empresas exportadoras, mas o impacto geral sobre a economia do país é considerado limitado. Especialistas ouvidos pela Agência Brasil apontam que a decisão americana possui um forte viés político, especialmente em um momento em que o mercado dos EUA representa menos de 16% do volume total de etanol exportado pelo Brasil.

A maior parte das vendas externas do biocombustível brasileiro é direcionada a outros mercados internacionais, apesar de os Estados Unidos figurarem como o segundo principal destino do produto. Luiz Carlos Delorme Prado, professor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ressalta que a participação dos EUA nas exportações brasileiras já vinha em declínio há anos, tornando o peso desse mercado relativamente pequeno mesmo antes da imposição tarifária.

O especialista em economia e comércio internacional avalia que as chances de reversão dessa tendência de tarifação são mínimas. Embora reconheça que a medida seja desfavorável para setores específicos, ele enfatiza que não representa uma tragédia econômica para o Brasil.

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A perspectiva mais provável, segundo o professor da UFRJ, é que o Brasil mantenha sua estratégia de buscar mercados alternativos para o etanol, uma prática já em curso.

Falta de previsibilidade no mercado americano

A diversificação de mercados, com o apoio do poder público, torna-se cada vez mais crucial diante da imprevisibilidade das políticas comerciais adotadas pela administração de Donald Trump. O professor da UFRJ destaca que, embora a perda de um mercado como o americano seja indesejável, ele se tornou problemático devido à ausência de previsibilidade e racionalidade.

Investir especificamente para atender a esse mercado é, atualmente, uma ação de alto risco. O Brasil necessita, portanto, cultivar parcerias mais confiáveis, pois a agenda política do governo americano para a América Latina, e não ganhos comerciais, parece ser o principal motor por trás dessas tarifas, segundo Delorme.

Participação minoritária dos EUA nas exportações

Em 2025, o Brasil exportou aproximadamente 1,6 milhão de metros cúbicos de etanol, gerando quase US$ 1 bilhão em receita. Desse total, cerca de 253 mil metros cúbicos foram destinados aos Estados Unidos, totalizando US$ 163 milhões. Isso significa que os EUA responderam por menos de 16% do volume e cerca de 17,5% da receita das exportações brasileiras de etanol.

Consequentemente, mais de 84% do volume exportado e aproximadamente 82,5% do faturamento tiveram outros mercados internacionais como destino, segundo dados da União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica).

Competitividade brasileira no setor de biocombustíveis

A competitividade intrínseca do Brasil no setor sucroalcooleiro é apontada como uma vantagem significativa na busca por novos mercados. Essas vantagens são estruturais, decorrentes de menores custos de produção e maior produtividade por hectare. Luis Augusto Barbosa Cortez, professor da Faculdade de Engenharia Agrícola da Unicamp e coordenador do Centro de Ciência para o Desenvolvimento do Etanol (CCD Etanol), explica que fatores climáticos e de solo favorecem o Brasil.

Enquanto os EUA produzem etanol majoritariamente a partir do milho, o Brasil, tradicionalmente produtor a partir da cana-de-açúcar, tem expandido sua produção com o uso do milho. Essa tendência de crescimento na participação do milho na produção de etanol é esperada para os próximos anos.

Produtividade e sustentabilidade

A capacidade do clima brasileiro de permitir uma segunda safra de milho, algo limitado nos EUA devido a invernos rigorosos, confere uma vantagem de produtividade. O produtor brasileiro pode, por exemplo, plantar milho após a colheita da soja, otimizando o uso da terra.

Atualmente, cerca de 75% do etanol brasileiro provém da cana-de-açúcar, com os 25% restantes sendo de milho. A expectativa é que a produção de etanol de milho alcance cerca de 30% até 2030 e se iguale à da cana por volta de 2050.

A integração entre agricultura e pecuária impulsiona a produção de etanol de milho, pois o farelo serve como insumo para ração animal, gerando ganhos ambientais ao reduzir a necessidade de pastagens. Além disso, o Brasil aproveita a biomassa (bagaço da cana e do milho) para gerar energia nas usinas, diminuindo custos de produção, ao contrário dos EUA, que precisam adquirir energia externa para parte do processo.

No caso da cana-de-açúcar, a produtividade por hectare no Brasil (aproximadamente 7 mil litros) supera a dos EUA (máximo de 5 mil litros).

Caráter político das tarifas americanas

Niels Soendergaard, professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB), classifica as tarifas americanas como eminentemente políticas, disfarçadas com uma argumentação técnica. Ele sugere que a administração Trump busca manipular desdobramentos políticos na América Latina através de pressão econômica.

Soendergaard contesta a base técnica das alegações americanas, afirmando que o Brasil cumpre as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC) e que a queda nas importações de etanol dos EUA se deve ao aumento da produção nacional baseada em milho. Ele aponta que o governo Trump frequentemente faz afirmações parciais ou divorciadas dos fatos para pressionar outros países, o que o torna um interlocutor pouco confiável.

Contexto das justificativas americanas

Os Estados Unidos fundamentam a imposição das tarifas em uma investigação do Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR), que alega práticas discriminatórias ou prejudiciais por parte do Brasil. Entre os pontos questionados estão o acesso ao mercado brasileiro de etanol, regras de comércio digital, sistemas de pagamento eletrônico, propriedade intelectual, medidas anticorrupção e desmatamento ilegal.

O governo brasileiro refuta essas alegações, sustentando que a investigação carece de respaldo nas normas multilaterais do comércio internacional.

Repercussão setorial e defesa das entidades

Entidades representativas do setor de etanol, tanto de cana quanto de milho, criticaram a tarifação. A Unica reitera que a política brasileira para o etanol está em conformidade com as regras da OMC, sendo aplicada de forma não discriminatória. A entidade argumenta que a redução das exportações americanas para o Brasil é consequência da expansão da produção nacional, especialmente do etanol de milho.

A Unica expressa confiança na condução das negociações pelo governo brasileiro e defende uma solução baseada no diálogo e no respeito às regras do comércio internacional.

Posicionamento da Unem

A União Nacional do Etanol de Milho (Unem) compartilha um posicionamento similar, afirmando que o Brasil não adota práticas discriminatórias e que a tarifa brasileira de importação de etanol é aplicada de forma igualitária e em conformidade com as regras da OMC.

A Unem reconhece o impacto direto limitado da tarifa sobre as exportações brasileiras, mas expressa preocupação com os precedentes que essa decisão pode estabelecer. A entidade também atribui a redução das importações americanas à expansão da produção nacional de etanol de milho e aos ganhos de competitividade do setor.

Por fim, a Unem reforça a confiança no diálogo institucional entre Brasil e EUA e defende a resolução de divergências comerciais por meio de negociação, visando preservar uma parceria estratégica para a transição energética.

FONTE/CRÉDITOS: Com edição do Lnove Notícias
FONTE/CRÉDITOS (IMAGEM DE CAPA): © Arquivo/26.07.2012/Tânia Rêgo/Agência Brasil

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