O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) confirmou ter mantido contato com o banqueiro Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master, por quase um ano, em busca de um patrocínio de R$ 134 milhões para a realização de um filme sobre a trajetória de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro. A revelação, feita nesta quarta-feira (13) pelo portal The Intercept Brasil, desencadeou a manifestação do parlamentar, que defende a natureza privada da transação, negando qualquer ilegalidade na cobrança dos valores.
Em nota oficial divulgada horas após a publicação da matéria, Flávio Bolsonaro reiterou o pedido de recursos e a natureza de sua relação com Vorcaro. Ele enfatizou que se tratou de uma iniciativa particular, sem envolvimento de verbas públicas ou da Lei Rouanet.
O senador argumentou que sua atuação se limitou a buscar um "patrocínio privado para um filme privado" sobre seu pai. Ele ressaltou que conheceu Daniel Vorcaro em dezembro de 2023, período em que o governo Bolsonaro já havia terminado e não havia acusações públicas contra o banqueiro. O contato foi reativado devido a atrasos nos pagamentos das parcelas do patrocínio, cruciais para a finalização da obra.
Flávio Bolsonaro também fez questão de negar qualquer combinação de vantagens indevidas. "Não ofereci vantagens em troca. Não promovi encontros privados fora da agenda. Não intermediei negócios com o governo. Não recebi dinheiro ou qualquer vantagem", afirmou, buscando diferenciar sua conduta de outras relações com o banqueiro.
Em sua defesa, o parlamentar traçou um paralelo com o que ele descreveu como "relações espúrias do governo Lula e seus representantes com Vorcaro", reforçando seu pedido por uma "CPI do MASTER JÁ".
Além da nota, um vídeo com Flávio Bolsonaro reiterando os mesmos pontos foi disseminado nas redes sociais. Na gravação, ele detalha que Vorcaro teria deixado de cumprir com as parcelas do patrocínio, apesar da existência de um contrato formal para os repasses acordados.
A gravação que veio a público
A reportagem do The Intercept Brasil, ao expor a conexão entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, trouxe à tona um áudio do próprio senador. Nele, Flávio enfatiza a relevância do filme sobre seu pai e a urgência no envio dos recursos para quitar "parcelas para trás" do financiamento.
Na mensagem direcionada ao banqueiro, o senador expressa um certo desconforto, mas justifica a cobrança: "Apesar de você ter dado a liberdade de a gente te cobrar, eu fico sem graça de ficar te cobrando. É porque está em um momento muito decisivo aqui do filme e, como tem muita parcela para trás, cara, está todo mundo tenso e fico preocupado com o efeito contrário com o que a gente sonhou para o filme".
A investigação do Intercept também revelou, por meio de mensagens de WhatsApp, documentos e comprovantes bancários, que parte dos valores do patrocínio teria sido efetivada entre fevereiro e maio de 2024.
A prisão de Daniel Vorcaro
As últimas interações entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, conforme apurado pela reportagem, ocorreram no início de novembro do ano anterior (2023). Esse período foi marcado por uma fase crítica para o Banco Master e seu proprietário. Em menos de quinze dias após essas trocas de mensagens, o Banco Central decretou a liquidação do Master, e a Polícia Federal (PF) efetuou a prisão do banqueiro, como parte de uma operação focada em fraudes financeiras.
Atualmente, Daniel Vorcaro permanece detido na Superintendência da PF em Brasília, onde está em processo de negociação para um possível acordo de delação premiada.
O filme, cuja produção estaria a cargo de uma empresa estrangeira com elenco e equipe internacionais, tem lançamento previsto para este ano. A matéria do Intercept detalha que o apoio financeiro envolveu transferências internacionais de uma companhia controlada por Vorcaro para um fundo nos Estados Unidos, administrado por Paulo Calixto, advogado de Eduardo Bolsonaro, irmão do senador.