Em um cenário onde as urnas eletrônicas completam três décadas de uso no Brasil, uma nova pesquisa do Projeto Confia, iniciativa do Pacto pela Democracia, revela que a desinformação sobre as eleições tem como alvo principal o sistema de votação. O levantamento, divulgado nesta quarta-feira (13), evidencia que mais de 45% dos conteúdos falsos compartilhados nos últimos ciclos eleitorais estavam focados no funcionamento das urnas.
A análise aprofundada, que investigou a origem da desconfiança eleitoral para planejar estratégias de combate à desinformação nas eleições de 2026, mostra que as narrativas enganosas exploram o desconhecimento técnico da população. O estudo analisou mais de 3 mil conteúdos veiculados nas eleições de 2022 e 2024, identificando 326 mensagens, equivalentes a mais de 45% do total, com ataques diretos às urnas eletrônicas.
Outros alvos frequentes da desinformação incluem o Supremo Tribunal Federal (STF) e outras autoridades, com 27,1% dos conteúdos falsos. Teorias de fraude na apuração dos votos representam 21,8%, enquanto a desinformação sobre regras e logística eleitoral soma 15,4%.
Entre os exemplos mais comuns de fake news sobre as urnas, destacam-se mensagens que alegavam um suposto atraso no botão “confirma” ou a falsa afirmação de que a urna completaria automaticamente os números digitados pelo eleitor.
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Explorando o desconhecimento técnico
Helena Salvador, coordenadora do Projeto Confia, explica que esses conteúdos desinformativos capitalizam sobre a falta de familiaridade técnica da população com o sistema eleitoral eletrônico. “As narrativas recorrem a falsas explicações técnicas para sugerir falhas e possibilidades de manipulação. Elementos concretos da experiência de votação, como as teclas da urna e as mensagens exibidas na tela, são utilizados para gerar estranhamento e alimentar dúvidas”, afirmou.
Salvador ressalta que a limitada interação da população com as urnas, que ocorre apenas a cada dois anos no dia da votação, cria um ambiente propício para a disseminação de notícias falsas. “As pessoas só têm acesso à urna a cada dois anos, no domingo de votação. Isso faz com que, se alguém espalha uma notícia falsa sobre um botão ou uma tecla, muita gente não tenha como checar rapidamente”, explicou.
A pesquisa visa, portanto, aprimorar a capacidade de resposta a esses ataques. “A gente queria entender em que exatamente as pessoas deixaram de acreditar quando falam das eleições. O levantamento mostra que a maior parte da desinformação circula em torno das urnas eletrônicas, queremos chegar em 2026 preparados para construir contra narrativas fortes e responder rapidamente aos ataques contra o sistema eleitoral”, concluiu a coordenadora.
O Pacto pela Democracia, responsável pela iniciativa, é uma coalizão com mais de 200 organizações da sociedade civil dedicadas à defesa do Estado Democrático de Direito e ao combate à desinformação eleitoral.
Confiança nas urnas eletrônicas
Apesar dos esforços de desinformação, a confiança nas urnas eletrônicas ainda é significativa, embora tenha apresentado variações. Uma pesquisa Quaest, divulgada em fevereiro deste ano, indicou que 53% dos brasileiros confiam no sistema. Esse índice é inferior aos 82% registrados em 2022, segundo levantamento do Datafolha divulgado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
A análise por faixa etária revela nuances interessantes: entre pessoas com 60 anos ou mais, 53% afirmam confiar no sistema, um índice que os pesquisadores associam à memória do período do voto em papel, anterior a 1996. Já entre jovens de 16 a 34 anos, a confiança atinge 57%.
No entanto, a faixa etária de 35 a 50 anos apresenta um desafio, com 50% dos entrevistados afirmando não confiar nas urnas eletrônicas. Helena Salvador enfatiza a necessidade de transparência: “Ninguém critica as urnas apenas dizendo que elas são ruins, existem explicações bastante sofisticadas online tentando convencer as pessoas de que o sistema não funciona. Isso mostra a importância de tornar mais compreensível o caminho do voto, desde o momento em que o eleitor aperta a tecla até a totalização”.